sábado, 1 de março de 2014

Ao mestre com carinho.

Profissão: professor.
Vocação: despertar a curiosidade e descobrir pessoas talhadas ao trabalho e ter dignidade acima de tudo. Comecei bem cedo, recém formado na ESPM, assumi na antiga FIAM, e mais tarde sendo adquirida pela FMU. Por ser muito jovem, nos primeiros dias fui convidado pela supervisora pedagógica da noite a sair da sala dos professores. "- Aqui não é lugar de alunos", disse ela, sem me conhecer. Mais tarde, se desculpou pelo equívoco.
Sempre preguei uma máxima que adotei desde jovem estudante. Ser feliz e não querer ter razão. Não era duro, porém mantinha a disciplina e responsabilidade. Exigente e coerente. Libertário, cumpridor e íntegro com os pares e comandados, e acima de tudo, respeitador dos nossos superiores.
Nem por isso, não evitei de participar da mais histórica greve na Universidade Metodista em S. Bernardo do Campo. Foi em 1.982, ano em que as ideias dos sindicalistas, leia-se metalúrgicos, do ABCD fervilhava na região e no Brasil. Fiz meu papel. Derrubamos o nosso reitor. Foi lá que ouvi pela primeira vez o termo ASPONE. Depois desta primavera universitária, vieram anos de muitas descobertas, dentro e fora do campus.
Fiz de tudo, de simples professor, levado pelas minhas aptidões em publicidade, passei a lecionar para as outras áreas, Jornalismo e Relações Públicas. Morava praticamente no campus, pois dava aula pelas manhãs e nas noites e à tarde fazia pós-graduação.
Foram anos maravilhosos. Comer de bandejão era must. Aulas com os companheiros de lutas e outros da Igreja Metodista, pastores e estrangeiros que vinham pelos convênios e intercâmbios.
Tempos que não voltarão jamais. Gente como Jaci Maraschin, Joel Camacho, Celso Daniel (o ex-prefeito de Sto. André, morto), pastores Ronaldo, Otoniel e Omar. Os diretores Onézimo e Dorival Beulk. Meus colegas da publicidade, Daniello, Fernandy, Marin, Jorge Claúdio, Ademir, Gylmar Godoy e outros de jornalismo, como o Miguel, que virou diretor, Gerson e o Faro.
Virei supervisor de TCC, fui paraninfo, trilhei tudo que um "mestre" deveria fazer em seu departamento. Fundei o jornal experimental, o "Rudge Ramos", com os colegas professores de jornalismo, Antonio de Moura e Rogério. Por lá passaram tantos jornalistas que hoje estão na ativa e super badalados. Zileide Silva (Globo) e Fernando Rodrigues (Folha) são alguns exemplos.
Dentro de algumas atitudes com a nossa marca, teve um exame final quando pedi aos alunos que fizessem a pergunta, respondessem e atribuíssem a própria nota. Caos na sala, loucura total. Foi para o curso de Relações Públicas. Lembro-me de um aluno Orfeu, não acreditava que estava acontecendo. Me deu muito trabalho nesse dia, pois não se conformava com a situação, e pasmem, deu a nota 6 para si próprio , chamei isso de teste de honestidade. Nunca tinham visto esse tipo de critério. Realmente fiz história por lá.
Sai no início das aulas em fevereiro de 1990, quando na primeira aula do ano letivo, um aluno me chamou de "tio". Não aguentei e fui embora, desistindo. Era demais para quem era chamado de mestre, teacher e/ou professor, e de repente ser chamado naquele momento de tio. Desde esta época, perguntam: - Você não gostaria de voltar a lecionar? Confesso que hoje às vezes o coração balança.
Outro dia me encontrei com um desses meus ex-alunos de nome Severo. E após passados vários anos ele se lembrou e disse aos seus familiares, encostando a sua cabeça no meu peito: - "Filhos, este é o meu mestre Salim".
E contou algumas passagens boas que tivemos, de onde destaco uma, a que eu levava a lista de chamada no bar, fora da escola, onde eles bebiam e jogavam "truco".
Sim, eu ia buscar os meus alunos na rua. Ganhei amigos, ganhei respeito sendo humilde e descendo da toga. É assim que construímos uma sociedade forte, proporcionando as pessoas a se tornarem GENTE, estendendo a mão e não virando as costas.

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