quinta-feira, 6 de junho de 2024

Lições do nosso cotidiano.

Vamos narrar mais uma história do nosso cotidiano. Sempre escrevo sobre minhas observações nos transportes coletivos que utilizo para me deslocar de casa até o centro da capital. 

Os trajetos de ônibus me enriquecem muito. Observar ao meu redor me faz sentir que a viagem fique mais rápida e me ensina muito sobre as pessoas. Acabo me tornado um analista de assentos, diferentemente dos divãs dos psicólogos nos consultórios.


Desta vez assisti a um caso bizarro, surpreendente e inusitado. Talvez alguns não saibam, mas os nossos ônibus possuem lixeiras ao longo do veículo. Em alguns casos, levam próximo de uma das lixeiras e também aos olhares do cobrador, vassouras de piaçaba. 


Acontece que este ônibus que peguei, era um veículo articulado, tipo 2X1, e havia uma lixeira no segundo ônibus, ou seja longe do olhar do cobrador. Resultado, uma senhorinha com os seus 70 anos, ao sair, levou consigo a vassoura. Talvez tenha pensado. Se não tem dono, se não é teu, então é meu. O valor é cerca de R$25,00.


O ônibus segue o trajeto. Num ponto seguinte sobe uma senhora com aparência de uns 35 anos de idade. Fica de pé. Não passa catraca. Olho pra ela e vejo um adesivo com os dizeres: ACOMPANHANTE. É claro que ela deve ter levado algum parente numa clínica ou consultório. Cobria seu seio esquerdo. E se esqueceu de retirar. Pensei? Alerto ou não? Para não deixá-la a pagar o mico, como algum engraçadinho dizer: – Me acompanhe! Ou coisa parecida. Então avisei-a. Após o susto, ela retira e me agradece. 


Continuando o trajeto do busão, adentra no ponto um cadeirante com a acompanhante, através da rampa manobrada pelo cobrador. O mesmo estaciona no espaço destinado aos deficientes e/ou cegos com cães-guia, bem em frente à porta de entrada de passageiros. 



Eu estava num assento próximo deste espaço, assistia a tudo isso. Deu para se notar que ele era portador de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica doença degenerativa e progressiva, que termina em paralisia motor), e o que me deixou impressionado foi seu semblante. 


Permaneceu o tempo todo sereno e sorrindo. A senhora que penso ser sua mãe, tia ou cuidadora, igualmente sorria. Ficou sentada do outro lado, próximo da catraca. Senti um contágio de boa vibração. Não havia lamentações pelo fato de estar doente e incapacitado. Estava num auto-astral impressionante. Sempre sorridente. Diferentemente de outras ocasiões onde já presenciei reclamações de outras pessoas com males semelhantes.


A viagem está próxima do seu final. Desço a dois pontos antes da parada no centro de Sampa. E levo a lembrança daquele rosto singelo, conformado com a sentença que esta doença impinge no destino dele. Talvez o seu sorriso seja um remédio que prolongue viver alguns anos mais. Talvez ele esteja desfrutando de uma experiência reparadora de sua vida terrena, se depurando para a próxima jornada, quem sabe? 


Concluo que a viagem me mostrou vários perfis de pessoas. O mundo é cheio de personagens curiosas, surpreendentes, com amplo espectro social. Todos somos singulares. Como Aristóteles, diz: – Só sei que nada sei. Só sei que devemos nos melhorar enquanto indivíduos, mesmo não sabendo onde iremos parar. Nossa vida possui várias estações, vários pontos, várias paradas, iremos subir ou descer. Cabe a nós seguir de maneira coerente, sem transgredir e agir moralmente conforme os preceitos cristãos.